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Resumo
Neste artigo, defendo que In Nomine Dei (1993) é mais um argumento saramaguiano contra o elevado valor que se atribui à razão humana e uma exortação a que sejamos não só lugares de testemunho e reflexão dos erros do passado e do presente mas também atores envolvidos na construção de um futuro menos trágico. Na peça, o ceticismo de José Saramago em relação à religião enquanto crença num ser metafísico não é o problema fundamental; a questão está na sua desconfiança relativamente à razão humana, tantas vezes apresentada orgulhosamente como atributo superior que distingue o Homem dos animais irracionais (e de toda a natureza, que existe, como se proclama no Génesis e noutros livros da Bíblia, para que o ser humano a administre, a subjugue e se sirva dela). O tratamento dramático dado a personagens como o anabatista Jan Van Leiden e o bispo cristão Waldeck e a outras que em vão se lhes opõem, sobretudo mulheres, permite a Saramago expressar a falência da Reforma e expor a tendência do Homem para a morte mais violenta e em larga escala.